domingo, 6 de setembro de 2015

1979


Em certo momento de nossas vidas passamos a relembrar de coisas que se passaram, que vivemos, de coisas que fizemos, algumas tortas, outras impublicáveis, ou ainda, dos prazeres que vivemos.
O passado fica pra trás e passa na velocidade da luz, quisera eu ter um engenho temporal. Tardis, Deloream ou efeito estilingue. Qualquer coisa que o valha, apenas para reviver as abafadas tardes e noites de fevereiro quando nossas bicicletas cortavam as ruas do bairro em que cresci a toda velocidade.
Amigos e companheiros. Que vídeo-game que nada. Bicicletas que furavam pneus, canivetes e fundas. Arco e flecha, tacos e skates. Assim era a vida naqueles dias calorentos e abafados de céu dourado.
Ninguém tem noção de quão delicioso foi começar a crescer em 1979, exatamente o ano que passei a ter noção de vida e de realidade. As amizades que se criaram nos três anos seguintes determinaram todo o meu caráter, retidão e quem sou. Sou grato por 1979, assim como sou grato por 1980, 81, 82... 1995, 96, 97, 98. A vida segue e vai sempre em frente, mas sempre com saudades da Caloi Cross laranja. Ou do cartucho de Atari com mau contato. Ou ainda do primeiro canivete suíço.
Não há música que exprima melhor este sentimento do que 1979. On a live wire right up off the street/ You and I should meet. Sempre correndo pelas ruas, sempre indo encontrar alguém. We were sure we'd never see an end to it all. Sem noção de tempo, de espaço, sem sonhar com o futuro que eventualmente construiríamos. And we don't know just where our bones will rest to dust, I guess. A morte nunca chegaria, éramos imortais. Faster than the speed of sound/ Faster than we thought we'd go/ Beneath the sound of hope. Sempre rápidos, a vida passando, os verões passando e nossas bicicletas voando. Justine never knew the rules. Convivi com quem não conhecia regras e eram meus amigos. Regras eram apenas as da irmandade. The street heats the urgency of now/ As you see there's no one around. Tudo instantâneo, não há mais ninguém nas ruas. Melancolia é isto, descobrir que o tempo passou e as coisas se foram, estão diferentes e nós trancados dentro de casa, sem saber ao certo o que fazer. A vida é isto, viver no equilíbrio.
E com saudades....
 

sábado, 30 de maio de 2015

Mad Max: Fury Road


 
Finalmente e depois de vários contratempos consegui assistir o filme que eu talvez mais tenha esperado nos últimos anos. Desde que os primeiros rumores que George Miller retomaria a franquia que o consagrou (e considerando o 3o filme, o desgraçou também) o índice de impaciência e expectativa chegaram a níveis intoleráveis. Mad Max é o ícone do badass, não há carro mais icônico nos filmes de ação do que o Ford Falcon Interceptor que o então policial Rockatansky recebe no primeiro filme lançado em 1979.
A espera acabou. Fui ao cinema buscando evitar qualquer tipo de expectativa ou emoção, mesmo depois de ler as críticas mais empolgantes, mencionando o filme como um divisor de águas do cinema moderno. E, ele o é, amplamente é. Fury Road eleva à enésima potência a palavra épico. Como os faroestes, a poeira está lá, a diligência que leva a mocinha da história também, os bandidos e índios, bem como os cavalos. Só que na visão pós apocalíptica de Miller, os cavalos brotam de poderosos motores V8 que impulsionam o que sobrou da humanidade em uma perseguição que não faz o menor sentido.
Religião e simbologia, com a cruz e outros símbolos substituídos por um volante e um possante motor. Immortan Joe é um vilão como tantos outros, lembrando de Darth Vader a Hannibal Lecter, buscando um império de absoluta desumanização da humanidade, um anjo caído, um lúcifer. Em contraponto, a virgem, a pura, Imperator Furiosa, a limpa de alma que busca a rehumanização de seu povo. No meio de tudo, Max perdido e sem muito a falar, apenas agindo por instinto de sobreviver em meio da degeneração da raça humana.
Deixando o simbologismo e filosofia de lado o que temos na tela é um espetáculo visual, com cores e movimentos que simplesmente um diretor genial conseguiriam expor. A fotografia é simplesmente deslumbrante, com tons de laranja a maior parte do tempo e alto contraste contra o fundo do deserto. A coreografia das perseguições bebe diretamente de faroestes e seus ataques a trens e diligências. Tudo grandioso e barulhento, muito barulhento. Fury Road foi feito para ser assistido em tela grande e com o volume no máximo. Quase não há diálogo, mas a percussão e o som da guitarra tocada freneticamente por Doof Warrior serve perfeitamente para completar as imagens. Charlize Theron é a dona do filme, deixando o Max de Tom Hardy quase em segundo plano. Os críticos a este detalhe parecem esquecer que o herói sempre se coloca no silêncio, observando e agindo apenas quando necessário. Talvez Hardy não tenha a experiência ou o talento para ser o Max idealizado por todos os fãs, mas, se sai bem ao manter a personalidade e trejeitos criados por Mel Gibson mais de três décadas atrás.
Fury Road é épico e marca exatamente uma nova era. Assim como num passado recente Matrix o foi. Todos os diretores de filmes de ação terão que seguir a cartilha criada por George Miller em sua visão de futuro da humanidade, futuro este, que pode nem ser tão distante assim.