quarta-feira, 15 de julho de 2020

O futuro, part II


A finalização o engenho temporal era iminente. Faltando apenas alguns parcos componentes, ele saiu à rua, com passos firmes de alguém que tinha a mais plena certeza de seu destino.
A aniquilação de tudo estava baseando-se em apenas meia dúzia de componentes eletrônicos que não enchem a palma de uma mão. Um pequeno circuito integrado, três capacitores, quatro cristais de quartzo e oito resistores. O último passo para a destruição derradeira do futuro da humanidade, o engenho temporal.
A cada passo dado na rua arborizada ele tinha a mais plena certeza que no momento em que ele acionasse o engenho dali a poucas horas e programasse a viagem final para quinze anos antes todo o universo deixaria de existir. Seus cálculos foram refeitos mais de duas mil vezes nos quinze anos em que reviveu sua vida e em todos o resultado foi sempre o mesmo. O fim. Universo aniquilado e o espaço-tempo rompido. O futuro e o tempo deixaria de existir, mas tudo valeria a pena, se ao menos nesta próxima tentativa, seu objetivo obtivesse êxito.


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Kim Deal...

O que escrever sobre ela? O que? O que? A musa? A perfeição? Sim, quem cresceu no meio/ fim dos 80 e início dos 90 não tem como não a ter como a musa absoluta.
Lembro-me claramente quando um bom amigo apareceu com o Doolittle debaixo do braço e colocou no som para ouvirmos.
Mind blow immediately!!
Isso era 1990. Informações? Zero, absolutamente zero. No máximo alguma dica na Ipa ou algo que saía na Bizz. Creio que alguns meses depois saiu na Bizz algo sobre o Pixies e comecei a entender toda a história e seu significado.
Em seguida comprei o Bossanova. Épico. Seguido de Surfer Rosa, Comes to Pilgrim e Trompe Le Monde, comprados obviamente fora de ordem.
Nunca comprei ou tive o Doolittle, seja em vinil ou cd. Apenas em fitas, copiadas daquele vinil que o Rato apareceu embaixo do braço e depois de um cd surgido sei lá de onde.
Mas, o poder estava na Kim, comprovado quando comprei o Last Splash em 1995 ou 1996.  
Kim, ah, Kim... sempre ela e nunca mais os Pixies foram os mesmos.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O Futuro, part I


E depois de tantos cálculos e simulações realizadas nos últimos anos mostravam cada vez mais profundamente que ele havia criado não apenas um engenho temporal, mas sim a ferramenta de aniquilação de toda a humanidade e talvez, coisa que ele ainda não estava completamente convencido, de todo o universo.
O fim do espaço-tempo.
No momento em que retornou sua consciência para 15 anos no passado, o futuro imediatamente deixou de existir. O caos. Viajar para trás é possível, mas aniquila o futuro. Mesmo que sua teoria e cálculos estivessem completamente equivocados, ainda existiriam as mudanças realizadas na linha temporal desde seu retorno. Ele havia anotado pequenas nuances e diferenças que se para outros eram inexistentes, para ele mostravam ainda mais que suas escolhas o haviam condenado.
Havia ainda a escolha final. A finalização do engenho temporal era iminente, mas, deveria realizar novamente seu retorno ao seu passado ou simplesmente tentar ignorar a existência da viagem anterior? Se arriscasse seguir em frente e seus cálculos e teorias estivessem corretos seria simplesmente o fim. Não apenas dele mesmo, mas de tudo como existe ou como conhecemos. O universo se tornaria o que era antes da existência, o fim e o início.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Trainspotting, até que enfim!


Depois de uma longa espera finalmente assisti T2: Trainspotting. A espera se deve possivelmente na certa preguiça em encontrar um cinema em que o filme foi exibido e absolutamente, o receio de que tudo se tornasse apenas uma amarga realidade.
Puxa, como estava enganado. Tudo, absolutamente tudo está lá. Li uma crítica em que o resenhador não entendeu absolutamente o filme, o reduzindo a uma história de viciados. T1 e T2 simplesmente não são sobre isso. São filmes sobre a história de todos nós que tínhamos ao redor de vinte anos em 1996. As frustrações, as dúvidas e as desilusões eram um espelho perfeito da realidade.
As discussões em 96 se estenderam até o ano seguinte, como se todos tentassem entender o que realmente estaria acontecendo e não cometer os mesmos erros exibidos na tela. 20 anos se passaram e algumas frustrações somente aumentaram enquanto que outras realidades não tiveram nenhuma mudança.
O retorno de Mark é emblemático, é o retorno e reencontro de si mesmo. Sickboy continua sendo o que sempre foi, o que sempre espelhou ser enquanto que Spud é o mesmo, apenas com suas perturbações exageradas ao infinito com o passar do tempo. Begbie tem seu rancor e ódio elevados também ao infinito e esses vinte anos acumulados são o estopim para talvez uma das mais brilhantes cenas do filme, o reencontro de Mark e Begbie.
Aliás, Begbie tem a tirada do “mundo muda e você continua o mesmo” resumindo o relacionamento e as personalidades dos quatro amigos. Já Sickboy tenta relativar com a frase "Você está aqui pela nostalgia e é um turista de sua própria juventude” dita a Mark no momento da homenagem a Tommy. Obviamente nostalgia faz parte da realidade de T2, faz parte da nossa realidade e é algo que viveremos para sempre com. Felizmente, o foco deixa de ser nostalgia e os manuscritos de Spud passam a traçar o futuro da ação, provando que a vida sempre é um ciclo de repetições e erros. Trainspotting é sobre a vida, a vida mundana e cotidiana e isso que o faz ser uma obra prima.


Veronika: What's 'Choose life'?
Renton: What?
Veronika: 'Choose life'. Simon says it sometimes. He says "Choose life, Veronika!"
Renton: 'Choose life'. 'Choose life' was a well meaning slogan from a 1980's anti-drug campaign and we used to add things to it, so I might say for example, choose... designer lingerie, in the vain hope of kicking some life back into a dead relationship. Choose handbags, choose high-heeled shoes, cashmere and silk, to make yourself feel what passes for happy. Choose an iPhone made in China by a woman who jumped out of a window and stick it in the pocket of your jacket fresh from a South-Asian Firetrap. Choose Facebook, Twitter, Snapchat, Instagram and a thousand others ways to spew your bile across people you've never met. Choose updating your profile, tell the world what you had for breakfast and hope that someone, somewhere cares. Choose looking up old flames, desperate to believe that you don't look as bad as they do. Choose live-blogging, from your first wank 'til your last breath; human interaction reduced to nothing more than data. Choose ten things you never knew about celebrities who've had surgery. Choose screaming about abortion. Choose rape jokes, slut-shaming, revenge porn and an endless tide of depressing misogyny. Choose 9/11 never happened, and if it did, it was the Jews. Choose a zero-hour contract and a two-hour journey to work. And choose the same for your kids, only worse, and maybe tell yourself that it's better that they never happened. And then sit back and smother the pain with an unknown dose of an unknown drug made in somebody's fucking kitchen. Choose unfulfilled promise and wishing you'd done it all differently. Choose never learning from your own mistakes. Choose watching history repeat itself. Choose the slow reconciliation towards what you can get, rather than what you always hoped for. Settle for less and keep a brave face on it. Choose disappointment and choose losing the ones you love, then as they fall from view, a piece of you dies with them until you can see that one day in the future, piece by piece, they will all be gone and there'll be nothing left of you to call alive or dead. Choose your future, Veronika. Choose life.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Escorrega mil, vai três, sobra sete – Frank Jorge


Não recebo em dólar o que a vida tem pra me dar” – o rockinroll pampeano é pródigo em criar frases de efeito e de uma sinceridade que não vejo par em nenhum outro local do universo. Mas, é justamente essa capacidade de criar frases e bordões que parecem ter saído de uma conversa à mesa após um belo churrascão de domingo em família que me fez novamente escrever sobre música, hábito que infelizmente e devido a compromissos profissionais tinha deixado de lado.
Pois bem, além de uma frase, uma surpresa em minha timeline provocou essa revolução e mudança, quando ao soar o apito de atualização me surgiu um post do grande Frank Jorge apresentando seu novo trabalho. Ouvi e com 15s de audição já pensei, que obra! – Nada é tão real – o som. Comentei imediatamente, - guitarreira afuzel. E é isso mesmo, sinceridade e honestidade.
Logo em seguida, recebi o contato do amigo Frank, que emocionadamente como de costume e numa singeleza sem igual me mandou o álbum para meu deleite. Ouvi e re-ouvi o entitulado “Escorrega mil, vai três, sobra sete” e só posso recomendar, quando for lançado, nos próximos dias e se você for fã de música sincera corra e compre, seja digital ou cd mesmo (alô alô, quero em vinil!!!).
Tem guitarreira, tem Ramones, tem iê-iê-iê, tem country, tem tudo nesse verdadeiro carreteirão musical que somente o cara que tem no sobrenome Graforréia e Cascaveletes pode mixar e tornar real.
Em um momento em que eu me questiono se a música ainda existe, ter essa surpresa não tem preço, não mesmo. Este não é um review faixa a faixa, e sim apenas um em que reafirmo a fé na música de verdade!Vida longa ao Frank! Vida longa ao Jorge!

Playlist:
01. NÃO É TÃO REAL
02. NO HORIZONTE
03. SEMPRE PROCURANDO
04. MAIS ALÉM
05. O VIAJANTE
06. SÓ DISTÂNCIA
07. NICODEMO
08. DOR E SILÊNCIO
09. TURMA 8
10. 15 MINUTINHOS
11. HEY HEY
12. ATÉ O SOL APARECER
Ficha técnica:
Frank Jorge: vozes, baixo, violão e guitarra
Felipe Rotta: guitarra
Alexandre Birck: bateria e guitarra
Bruno Alcalde: guitarra
Régis Sam: baixo
Francisco Santos: baixo

Vanessa Longoni e Daniel Tessler: voz


terça-feira, 14 de junho de 2016

O passado, part III ou, a monotomia do conhecimento.


Conhecimento pode ser monótono. Alias, conhecimento é monótono. Ele demorou apenas alguns anos para descobrir esta terrível realidade. O tempo, que antes passara de forma tão rápida e incontrolável e que inspirou seu trabalho na criação do engenho temporal agora se arrastava de forma medonha defronte a seus olhos. A construção do engenho temporal tinha sido iniciado naquele verão quente, tal e qual como o que já havia acontecido. Conhecimento. Ele conhecia o passado e também o futuro. Monotonia do amor que foi esquecido e não foi recuperado de forma alguma. Novamente a realidade de que construindo novamente o engenho temporal a realidade poderia ser mudada.
No tempo atual ele nem pensava mais em paradoxos temporais que inevitavelmente teria criado ao realizar sua viagem que inevitavelmente seria repetida dali a 10 anos. Mais 10 anos de sua vida não construindo a máquina que traria seu amor de volta, mas que iria inevitavelmente destruir sua vida..

domingo, 6 de setembro de 2015

1979


Em certo momento de nossas vidas passamos a relembrar de coisas que se passaram, que vivemos, de coisas que fizemos, algumas tortas, outras impublicáveis, ou ainda, dos prazeres que vivemos.
O passado fica pra trás e passa na velocidade da luz, quisera eu ter um engenho temporal. Tardis, Deloream ou efeito estilingue. Qualquer coisa que o valha, apenas para reviver as abafadas tardes e noites de fevereiro quando nossas bicicletas cortavam as ruas do bairro em que cresci a toda velocidade.
Amigos e companheiros. Que vídeo-game que nada. Bicicletas que furavam pneus, canivetes e fundas. Arco e flecha, tacos e skates. Assim era a vida naqueles dias calorentos e abafados de céu dourado.
Ninguém tem noção de quão delicioso foi começar a crescer em 1979, exatamente o ano que passei a ter noção de vida e de realidade. As amizades que se criaram nos três anos seguintes determinaram todo o meu caráter, retidão e quem sou. Sou grato por 1979, assim como sou grato por 1980, 81, 82... 1995, 96, 97, 98. A vida segue e vai sempre em frente, mas sempre com saudades da Caloi Cross laranja. Ou do cartucho de Atari com mau contato. Ou ainda do primeiro canivete suíço.
Não há música que exprima melhor este sentimento do que 1979. On a live wire right up off the street/ You and I should meet. Sempre correndo pelas ruas, sempre indo encontrar alguém. We were sure we'd never see an end to it all. Sem noção de tempo, de espaço, sem sonhar com o futuro que eventualmente construiríamos. And we don't know just where our bones will rest to dust, I guess. A morte nunca chegaria, éramos imortais. Faster than the speed of sound/ Faster than we thought we'd go/ Beneath the sound of hope. Sempre rápidos, a vida passando, os verões passando e nossas bicicletas voando. Justine never knew the rules. Convivi com quem não conhecia regras e eram meus amigos. Regras eram apenas as da irmandade. The street heats the urgency of now/ As you see there's no one around. Tudo instantâneo, não há mais ninguém nas ruas. Melancolia é isto, descobrir que o tempo passou e as coisas se foram, estão diferentes e nós trancados dentro de casa, sem saber ao certo o que fazer. A vida é isto, viver no equilíbrio.
E com saudades....