terça-feira, 14 de novembro de 2017

Trainspotting, até que enfim!


Depois de uma longa espera finalmente assisti T2: Trainspotting. A espera se deve possivelmente na certa preguiça em encontrar um cinema em que o filme foi exibido e absolutamente, o receio de que tudo se tornasse apenas uma amarga realidade.
Puxa, como estava enganado. Tudo, absolutamente tudo está lá. Li uma crítica em que o resenhador não entendeu absolutamente o filme, o reduzindo a uma história de viciados. T1 e T2 simplesmente não são sobre isso. São filmes sobre a história de todos nós que tínhamos ao redor de vinte anos em 1996. As frustrações, as dúvidas e as desilusões eram um espelho perfeito da realidade.
As discussões em 96 se estenderam até o ano seguinte, como se todos tentassem entender o que realmente estaria acontecendo e não cometer os mesmos erros exibidos na tela. 20 anos se passaram e algumas frustrações somente aumentaram enquanto que outras realidades não tiveram nenhuma mudança.
O retorno de Mark é emblemático, é o retorno e reencontro de si mesmo. Sickboy continua sendo o que sempre foi, o que sempre espelhou ser enquanto que Spud é o mesmo, apenas com suas perturbações exageradas ao infinito com o passar do tempo. Begbie tem seu rancor e ódio elevados também ao infinito e esses vinte anos acumulados são o estopim para talvez uma das mais brilhantes cenas do filme, o reencontro de Mark e Begbie.
Aliás, Begbie tem a tirada do “mundo muda e você continua o mesmo” resumindo o relacionamento e as personalidades dos quatro amigos. Já Sickboy tenta relativar com a frase "Você está aqui pela nostalgia e é um turista de sua própria juventude” dita a Mark no momento da homenagem a Tommy. Obviamente nostalgia faz parte da realidade de T2, faz parte da nossa realidade e é algo que viveremos para sempre com. Felizmente, o foco deixa de ser nostalgia e os manuscritos de Spud passam a traçar o futuro da ação, provando que a vida sempre é um ciclo de repetições e erros. Trainspotting é sobre a vida, a vida mundana e cotidiana e isso que o faz ser uma obra prima.


Veronika: What's 'Choose life'?
Renton: What?
Veronika: 'Choose life'. Simon says it sometimes. He says "Choose life, Veronika!"
Renton: 'Choose life'. 'Choose life' was a well meaning slogan from a 1980's anti-drug campaign and we used to add things to it, so I might say for example, choose... designer lingerie, in the vain hope of kicking some life back into a dead relationship. Choose handbags, choose high-heeled shoes, cashmere and silk, to make yourself feel what passes for happy. Choose an iPhone made in China by a woman who jumped out of a window and stick it in the pocket of your jacket fresh from a South-Asian Firetrap. Choose Facebook, Twitter, Snapchat, Instagram and a thousand others ways to spew your bile across people you've never met. Choose updating your profile, tell the world what you had for breakfast and hope that someone, somewhere cares. Choose looking up old flames, desperate to believe that you don't look as bad as they do. Choose live-blogging, from your first wank 'til your last breath; human interaction reduced to nothing more than data. Choose ten things you never knew about celebrities who've had surgery. Choose screaming about abortion. Choose rape jokes, slut-shaming, revenge porn and an endless tide of depressing misogyny. Choose 9/11 never happened, and if it did, it was the Jews. Choose a zero-hour contract and a two-hour journey to work. And choose the same for your kids, only worse, and maybe tell yourself that it's better that they never happened. And then sit back and smother the pain with an unknown dose of an unknown drug made in somebody's fucking kitchen. Choose unfulfilled promise and wishing you'd done it all differently. Choose never learning from your own mistakes. Choose watching history repeat itself. Choose the slow reconciliation towards what you can get, rather than what you always hoped for. Settle for less and keep a brave face on it. Choose disappointment and choose losing the ones you love, then as they fall from view, a piece of you dies with them until you can see that one day in the future, piece by piece, they will all be gone and there'll be nothing left of you to call alive or dead. Choose your future, Veronika. Choose life.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Escorrega mil, vai três, sobra sete – Frank Jorge


Não recebo em dólar o que a vida tem pra me dar” – o rockinroll pampeano é pródigo em criar frases de efeito e de uma sinceridade que não vejo par em nenhum outro local do universo. Mas, é justamente essa capacidade de criar frases e bordões que parecem ter saído de uma conversa à mesa após um belo churrascão de domingo em família que me fez novamente escrever sobre música, hábito que infelizmente e devido a compromissos profissionais tinha deixado de lado.
Pois bem, além de uma frase, uma surpresa em minha timeline provocou essa revolução e mudança, quando ao soar o apito de atualização me surgiu um post do grande Frank Jorge apresentando seu novo trabalho. Ouvi e com 15s de audição já pensei, que obra! – Nada é tão real – o som. Comentei imediatamente, - guitarreira afuzel. E é isso mesmo, sinceridade e honestidade.
Logo em seguida, recebi o contato do amigo Frank, que emocionadamente como de costume e numa singeleza sem igual me mandou o álbum para meu deleite. Ouvi e re-ouvi o entitulado “Escorrega mil, vai três, sobra sete” e só posso recomendar, quando for lançado, nos próximos dias e se você for fã de música sincera corra e compre, seja digital ou cd mesmo (alô alô, quero em vinil!!!).
Tem guitarreira, tem Ramones, tem iê-iê-iê, tem country, tem tudo nesse verdadeiro carreteirão musical que somente o cara que tem no sobrenome Graforréia e Cascaveletes pode mixar e tornar real.
Em um momento em que eu me questiono se a música ainda existe, ter essa surpresa não tem preço, não mesmo. Este não é um review faixa a faixa, e sim apenas um em que reafirmo a fé na música de verdade!Vida longa ao Frank! Vida longa ao Jorge!

Playlist:
01. NÃO É TÃO REAL
02. NO HORIZONTE
03. SEMPRE PROCURANDO
04. MAIS ALÉM
05. O VIAJANTE
06. SÓ DISTÂNCIA
07. NICODEMO
08. DOR E SILÊNCIO
09. TURMA 8
10. 15 MINUTINHOS
11. HEY HEY
12. ATÉ O SOL APARECER
Ficha técnica:
Frank Jorge: vozes, baixo, violão e guitarra
Felipe Rotta: guitarra
Alexandre Birck: bateria e guitarra
Bruno Alcalde: guitarra
Régis Sam: baixo
Francisco Santos: baixo

Vanessa Longoni e Daniel Tessler: voz


terça-feira, 14 de junho de 2016

O passado, part III ou, a monotomia do conhecimento.


Conhecimento pode ser monótono. Alias, conhecimento é monótono. Ele demorou apenas alguns anos para descobrir esta terrível realidade. O tempo, que antes passara de forma tão rápida e incontrolável e que inspirou seu trabalho na criação do engenho temporal agora se arrastava de forma medonha defronte a seus olhos. A construção do engenho temporal tinha sido iniciado naquele verão quente, tal e qual como o que já havia acontecido. Conhecimento. Ele conhecia o passado e também o futuro. Monotonia do amor que foi esquecido e não foi recuperado de forma alguma. Novamente a realidade de que construindo novamente o engenho temporal a realidade poderia ser mudada.
No tempo atual ele nem pensava mais em paradoxos temporais que inevitavelmente teria criado ao realizar sua viagem que inevitavelmente seria repetida dali a 10 anos. Mais 10 anos de sua vida não construindo a máquina que traria seu amor de volta, mas que iria inevitavelmente destruir sua vida..

domingo, 6 de setembro de 2015

1979


Em certo momento de nossas vidas passamos a relembrar de coisas que se passaram, que vivemos, de coisas que fizemos, algumas tortas, outras impublicáveis, ou ainda, dos prazeres que vivemos.
O passado fica pra trás e passa na velocidade da luz, quisera eu ter um engenho temporal. Tardis, Deloream ou efeito estilingue. Qualquer coisa que o valha, apenas para reviver as abafadas tardes e noites de fevereiro quando nossas bicicletas cortavam as ruas do bairro em que cresci a toda velocidade.
Amigos e companheiros. Que vídeo-game que nada. Bicicletas que furavam pneus, canivetes e fundas. Arco e flecha, tacos e skates. Assim era a vida naqueles dias calorentos e abafados de céu dourado.
Ninguém tem noção de quão delicioso foi começar a crescer em 1979, exatamente o ano que passei a ter noção de vida e de realidade. As amizades que se criaram nos três anos seguintes determinaram todo o meu caráter, retidão e quem sou. Sou grato por 1979, assim como sou grato por 1980, 81, 82... 1995, 96, 97, 98. A vida segue e vai sempre em frente, mas sempre com saudades da Caloi Cross laranja. Ou do cartucho de Atari com mau contato. Ou ainda do primeiro canivete suíço.
Não há música que exprima melhor este sentimento do que 1979. On a live wire right up off the street/ You and I should meet. Sempre correndo pelas ruas, sempre indo encontrar alguém. We were sure we'd never see an end to it all. Sem noção de tempo, de espaço, sem sonhar com o futuro que eventualmente construiríamos. And we don't know just where our bones will rest to dust, I guess. A morte nunca chegaria, éramos imortais. Faster than the speed of sound/ Faster than we thought we'd go/ Beneath the sound of hope. Sempre rápidos, a vida passando, os verões passando e nossas bicicletas voando. Justine never knew the rules. Convivi com quem não conhecia regras e eram meus amigos. Regras eram apenas as da irmandade. The street heats the urgency of now/ As you see there's no one around. Tudo instantâneo, não há mais ninguém nas ruas. Melancolia é isto, descobrir que o tempo passou e as coisas se foram, estão diferentes e nós trancados dentro de casa, sem saber ao certo o que fazer. A vida é isto, viver no equilíbrio.
E com saudades....
 

sábado, 30 de maio de 2015

Mad Max: Fury Road


 
Finalmente e depois de vários contratempos consegui assistir o filme que eu talvez mais tenha esperado nos últimos anos. Desde que os primeiros rumores que George Miller retomaria a franquia que o consagrou (e considerando o 3o filme, o desgraçou também) o índice de impaciência e expectativa chegaram a níveis intoleráveis. Mad Max é o ícone do badass, não há carro mais icônico nos filmes de ação do que o Ford Falcon Interceptor que o então policial Rockatansky recebe no primeiro filme lançado em 1979.
A espera acabou. Fui ao cinema buscando evitar qualquer tipo de expectativa ou emoção, mesmo depois de ler as críticas mais empolgantes, mencionando o filme como um divisor de águas do cinema moderno. E, ele o é, amplamente é. Fury Road eleva à enésima potência a palavra épico. Como os faroestes, a poeira está lá, a diligência que leva a mocinha da história também, os bandidos e índios, bem como os cavalos. Só que na visão pós apocalíptica de Miller, os cavalos brotam de poderosos motores V8 que impulsionam o que sobrou da humanidade em uma perseguição que não faz o menor sentido.
Religião e simbologia, com a cruz e outros símbolos substituídos por um volante e um possante motor. Immortan Joe é um vilão como tantos outros, lembrando de Darth Vader a Hannibal Lecter, buscando um império de absoluta desumanização da humanidade, um anjo caído, um lúcifer. Em contraponto, a virgem, a pura, Imperator Furiosa, a limpa de alma que busca a rehumanização de seu povo. No meio de tudo, Max perdido e sem muito a falar, apenas agindo por instinto de sobreviver em meio da degeneração da raça humana.
Deixando o simbologismo e filosofia de lado o que temos na tela é um espetáculo visual, com cores e movimentos que simplesmente um diretor genial conseguiriam expor. A fotografia é simplesmente deslumbrante, com tons de laranja a maior parte do tempo e alto contraste contra o fundo do deserto. A coreografia das perseguições bebe diretamente de faroestes e seus ataques a trens e diligências. Tudo grandioso e barulhento, muito barulhento. Fury Road foi feito para ser assistido em tela grande e com o volume no máximo. Quase não há diálogo, mas a percussão e o som da guitarra tocada freneticamente por Doof Warrior serve perfeitamente para completar as imagens. Charlize Theron é a dona do filme, deixando o Max de Tom Hardy quase em segundo plano. Os críticos a este detalhe parecem esquecer que o herói sempre se coloca no silêncio, observando e agindo apenas quando necessário. Talvez Hardy não tenha a experiência ou o talento para ser o Max idealizado por todos os fãs, mas, se sai bem ao manter a personalidade e trejeitos criados por Mel Gibson mais de três décadas atrás.
Fury Road é épico e marca exatamente uma nova era. Assim como num passado recente Matrix o foi. Todos os diretores de filmes de ação terão que seguir a cartilha criada por George Miller em sua visão de futuro da humanidade, futuro este, que pode nem ser tão distante assim.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O passado - part II


Alguns anos se passaram desde a bem sucedida experiência com o engenho temporal. A realidade então se descortinava não como uma novidade a cada segundo, mas como uma lembrança que é rememorada a cada instante. Sua mente é a do futuro, porém, seu corpo e ambiente é o passado.
O presente é o passado. Prisioneiro de uma verdade imutável que foi se descortinando frente a seus olhos. Mudar o futuro se mostrou muito mais difícil do que teorizado e a linha do tempo, salvo pequenas mudanças, continuava a seguir o mesmo traçado já vivido.
Cada dia que se passa ele tem mais em consciência que se tornou um imortal. Inevitavelmente dali alguns anos ele fará novamente a viagem ao passado e o engenho temporal provará que sua vida ganhou a inevitável denotação de inferno.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Pinewood

Os estúdios Pinewood eram instalações avante seu tempo. Paredes verdes com uma faixa laranja e detalhes em cinza e bege. Um grafiti colorido ecoava a todos sobre a psicodelia plena daquela caixa de idéias. O ponto era que uma simples partida de sinuca se tornava uma justa medieval em questão de segundos. E, as idéias brotavam. Os sonhos nasciam. Tão rapidamente quanto a geladeira ou a cafeteira esvaziavam-se. Sempre com trilha sonora a mil as histórias iam se desenrolando na velocidade da luz. O ex-seminarista pedia um Maria nos dia ou uma benga melada. O baterista tomava café e nada mais. O karateca chutava as paredes nos erros no tênis de mesa. Do núcleo do sofá do Pinewood partiram expedições em busca de espaçonaves perdidas. Explorações fantásticas em que todos se tornavam membros do grupo. Isso é o que somos. Isso é o que éramos.