Ele seguia em seu novo carro – feliz por conseguir
dar um pouco mais de conforto à sua família – para encontrar-se com sua esposa.
Fazer um agrado em sua folga. O desconforto de sua moto era passado, a
felicidade de estar e se sentir protegendo as pessoas que mais gostava a bordo
de um carro o trazia uma sensação de dever cumprido. Ela dirigia seu ônibus,
feliz por ter o que fazer, cumprir seu dever e levar as pessoas para casa após
um dia cansativo. O objetivo de tudo era sorrir, ser mais feliz, e ter o dinheiro
vindo da direção do pequeno ônibus para comprar presentes e o que mais fosse
necessário para sua pequena filha.
Em uma fração
de segundo, o ruído. O silêncio e a falta de luz. Os gritos e o adeus. Suas
vidas, tão distantes até aquele momento se uniam na morte. Eram mais dois.
Apenas mais dois. Ambos não queriam grandes coisas ou grandes realizações,
apenas ter sua casa, seu carro, sua TV e fazer uma ou outra festa. Para muitos,
uma vida medíocre. Para outros, uma vida normal. Para outros mais, uma vida
acomodada, mas a vida deles, de pessoas honestas.
O prefeito não
viu nada demais. O empreiteiro disse que era um acidente. Outro disse que era
normal. Outro ainda não disse nada. E todos ficaram em silêncio, ninguém os
chamou de assassinos. De vigaristas. De ladrões. De nada.
Praticamente
em cima do acontecido um jogo. Um jogador, uma jogada, nada demais, uma
joelhada e uma pessoa machucada. Algo normal e absolutamente irrelevante. Todos
se machucam em esportes de contato. Grandes coisa.
Mas, o prefeito
gritou – “Assassino! Tem que ir pra cadeia!” – o empreiteiro bradou – “é
uma vergonha!” e o outro disse – “Algo tem que ser feito urgente”. A
população concordou. Gritou. Revolução a vista. Corrente de orações se
espalharam. Pessoas chorando nas ruas. Comoção, revolta e revolução! Tomar uma
atitude é o que mais se escuta. O governo tem que se manifestar, tomar uma
atitude.
Enquanto isso,
no lado do rapaz e da moça, apenas silêncio. Eles não tem mais voz. Se foram.
Já o herói-nacional-ferido brinca com seu vídeo-game e ouve o prefeito
chamando seu algoz de assassino e sorri pela justiça que será feita. Pelas mãos
do povo. Já o empreiteiro toma uma cervejinha com o outro, usando seu lucro da
obra cara que destruiu duas vidas e duas famílias.
Mas, ninguém,
os chamará de assassinos. Nunca. Na verdade, os escolherão novamente em um
futuro não tão distante para novamente fazerem o que sabem de melhor: engordar
às custas do povo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário