sábado, 5 de julho de 2014

Um dia normal

         Ele seguia em seu novo carro – feliz por conseguir dar um pouco mais de conforto à sua família – para encontrar-se com sua esposa. Fazer um agrado em sua folga. O desconforto de sua moto era passado, a felicidade de estar e se sentir protegendo as pessoas que mais gostava a bordo de um carro o trazia uma sensação de dever cumprido. Ela dirigia seu ônibus, feliz por ter o que fazer, cumprir seu dever e levar as pessoas para casa após um dia cansativo. O objetivo de tudo era sorrir, ser mais feliz, e ter o dinheiro vindo da direção do pequeno ônibus para comprar presentes e o que mais fosse necessário para sua pequena filha.
Em uma fração de segundo, o ruído. O silêncio e a falta de luz. Os gritos e o adeus. Suas vidas, tão distantes até aquele momento se uniam na morte. Eram mais dois. Apenas mais dois. Ambos não queriam grandes coisas ou grandes realizações, apenas ter sua casa, seu carro, sua TV e fazer uma ou outra festa. Para muitos, uma vida medíocre. Para outros, uma vida normal. Para outros mais, uma vida acomodada, mas a vida deles, de pessoas honestas.
O prefeito não viu nada demais. O empreiteiro disse que era um acidente. Outro disse que era normal. Outro ainda não disse nada. E todos ficaram em silêncio, ninguém os chamou de assassinos. De vigaristas. De ladrões. De nada.
Praticamente em cima do acontecido um jogo. Um jogador, uma jogada, nada demais, uma joelhada e uma pessoa machucada. Algo normal e absolutamente irrelevante. Todos se machucam em esportes de contato. Grandes coisa.
Mas, o prefeito gritou – “Assassino! Tem que ir pra cadeia!” – o empreiteiro bradou – “é uma vergonha!” e o outro disse – “Algo tem que ser feito urgente”. A população concordou. Gritou. Revolução a vista. Corrente de orações se espalharam. Pessoas chorando nas ruas. Comoção, revolta e revolução! Tomar uma atitude é o que mais se escuta. O governo tem que se manifestar, tomar uma atitude.
Enquanto isso, no lado do rapaz e da moça, apenas silêncio. Eles não tem mais voz. Se foram. Já o herói-nacional-ferido brinca com seu vídeo-game e ouve o prefeito chamando seu algoz de assassino e sorri pela justiça que será feita. Pelas mãos do povo. Já o empreiteiro toma uma cervejinha com o outro, usando seu lucro da obra cara que destruiu duas vidas e duas famílias.

Mas, ninguém, os chamará de assassinos. Nunca. Na verdade, os escolherão novamente em um futuro não tão distante para novamente fazerem o que sabem de melhor: engordar às custas do povo.

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