sexta-feira, 13 de junho de 2014

Diário do Capitão

Quando era pequeno a porta de meu quarto não dava propriamente para meu quarto. Era o portal de entrada para um mundo diferente, de sonhos, batalhas estelares, cruzadas para salvar a princesa e aventuras marítimas. Muitas vezes a porta não dava também para o corredor da casa e sim para uma dimensão onde nem todos eram mocinhos.
As vezes me assusto com o que pode acontecer fora de meu quarto, fora de meu território. Crescemos, às vezes como não queremos, conquistamos responsabilidades que não queríamos. Mas sempre temos nosso quarto. Porta de entrada para nosso mundo de sonhos, de perfeição. Momentos onde podemos derrotar o cara mau. Onde seguramos a espada e eliminamos o inimigo que nos afasta da princesa.
Fora do quarto em muitas vezes não consigo encontrar como derrotar os inimigos, acabo voltando pro quarto e sonhando. Apenas sonhando. Como quando eu sonhava ser capitão. De navio, de uma nave, de um avião. Mesmo que um avião não tenha capitão, e sim um comandante. Mas eu queria ser o capitão e ponto final.
Faz 11 anos que eu estava relembrando esses sonhos de criança, de ser capitão. De meu quarto e de toda a fantasia que povoa a alma infantil. Que videogame que nada. Que tevê que nada. Livros, histórias e brinquedos. Sonhos e fantasias, isso que é infância. Relembrando pensava como era bom ser capitão, James Kirk e o Vulcano. Sr. Spock, faça alguma coisa!
Subindo a ladeira em Caxias eu lembrava ser capitão e por um momento pequeno e único eu realmente era o capitão. Subo a rua, íngreme, enorme, como todas as ruas de Caxias. Quando paro na esquina. Um mendigo louco, ou apenas louco bate continência e diz: “Belo dia capitão!” Segundos e uma frase que marcou.
Fico olhando o louco indo, após me cumprimentar. “Belo dia capitão!” Olhando pro céu, imagino novamente todo o sonho infantil. Tiro o chapéu e olho pro céu. Sim, eu usava chapéu, talvez isso que tenha provocado o cara me chamar de capitão. Mas isso não é importante. Nem um pouco. Porque naquele momento, eu era realmente um capitão.

            Atravesso a rua, o ônibus vem, e a infância se vai. Até um dia, Sr. Spock.

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